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Ensino em Angola, uma triste realidade PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Wanderley Ribeiro   
Sexta, 22 Setembro 2006 04:02

LaboratórioDepois de quase 30 anos de conflito armado Angola volta a sentir o sabor da paz e da convivência em união. Infelizmente a guerra foi um dos principais fatores para o atraso do desenvolvimento angolano, ficamos parados no tempo e perdidos no espaço sem poder avançar e na tendência da regressão. A juventude angolana sente actualmente a latente necessidade de uma formação superior, no intuito de colaborar no desenvolvimento da nação. É grande o número de jovens angolanos nas faculdades em busca do conhecimento e da profissionalização.

O maior problema é que estes mesmos jovens sentem-se insatisfeitos com a qualidade de ensino oferecida pelas instituições superiores em Angola, a questão é: as universidades em Angola estão preocupadas com a qualidade de ensino ou simplesmente com a aquisição lucrativa dos serviços por eles oferecidos?

Nos últimos dias tenho recebido alguns e-mails e conversado com alguns estudantes das faculdades em Angola, e todos eles batem na mesma tecla, "as univerdidades em Angola estão mais preocupadas com o lucro" ou "os professores das universidades só querem o dinheiro no final do mês e não estão nem aí para nós". Depois de ouvir algumas pessoas eu prometi que escreveria um artigo sobre esse assunto, aproveitando até para fazer abordagens mais específicas.

Depois de ouvir a todos e fazer algumas pesquisas decidi então compilar o total de informações obtidas, a análise que fiz foi baseada nos cursos tecnológicos, porém, sei que os demais cursos encontram-se na mesma ou em pior situação, mas neste artigo pretendo me conter em relatar simplesmente sobre a área tecnológica.

 

A REALIDADE EM ANGOLA

Eu comecei este artigo a falar sobre o tempo de sofrimento que a população angolana teve que passar por causa do conflito armado, sabemos que a maior parte da população das províncias acabou por buscar refúgio em Luanda, onde a segurança era mais garantida e as condições talvez fossem mais prometedoras, população essa com uma maioria jovem, muitos deles perderam as suas famílias, perderam o lar, a paz, o sussego, muitos perderam o amor ao próximo, mas uma coisa eles não perderam, a esperança de reconquistar o que lhes foi tirado. Talvez enquanto esses mesmos refugiados estavam nas estradas, a percorrer centenas de kilômentros em busca da sobrevivência, muitos de nós estávamos fora do país, de férias, a estudar, e para a nossa felicidade acabamos por não presenciar os piores momentos da história angolana. Hoje, muitos daqueles refugiados continuam entre nós, uns lavam carros, outros são cobradores, as moças acabaram por optar pela venda nas praças, venda ambulante em pontos estratégicos e outros ainda optaram pelo pior caminho, mas as vezes porque não viram outra saída, a delinquência.

Enquanto tudo isso acontece, continuamos fora do país, continuamos os nossos estudos em busca de melhores condições para um futuro próximo, continuamos a sonhar em voltar para Angola e constituir família e dar o melhor aos nossos filhos, temos a faculdade paga, um kumbu para os finais de semana não passarem em branco, ou seja, temos o direito de continuar em busca das nossas concretizações. E eles? O que será daqueles que perderam as suas famílias? Daqueles que lhes foi tirada a paz? Dos que foram obrigados pela vida a vender pelas ruas? Sim, refiro-me aos jovens angolanos que vimos todos os dias quando saímos de casa, a lavarem carros pelas ruas, a venderem nas praças, será que eles não têm também o direito de sonhar com um futuro melhor? Será que eles não têm o direito de uma formação profissional para ingressarem no mercado de trabalho, e poder dar o melhor para as suas famílias? O que é que nós temos de melhor em relação à eles? Quem de nós sofreu mais com a guerra de poder em que na qual eles não tinham nada haver? Quem poderá nos responder a estas e outras perguntas que eles fazem-se todos os dias?

 

AS UNIVERSIDADES

As universidades desempenham um papel importantíssimo no desenvolvimento de Angola, são elas as responsáveis pela profissionalização da nossa juventude, porém, ultimamente os jovens têm reclamado da péssima qualidade de ensino por parte das instituições superiores, cobram valores absurdos alegando que é devido a qualidade e aos recursos oferecidos. Vamos analisar um caso de uma faculdade em Angola (sem citar nomes), que numa turma de informática possui em média 100 alunos e tem um laboratório com 20 máquinas (ou nem isso), essa mesma faculdade cobra aproximadamente 250 dólares por cada aluno, ou seja, por mês aquela turma rende um "lucro" de aproximadamente, 25.000 dólares. Em Luanda temos empresas que vendem bons computadores ao preço de 1.000 dólares, portanto, com os 25.000 dólares da turma de informática daria perfeitamente para colocar 25 máquinas num laboratório para as aulas práticas. E lembrem-se que a desculpa está relacionada aos recursos oferecidos, eles chamam a uma sala de 20 máquinas de "recursos oferecidos", isso deveria se chamar "condições mínimas, senão precárias, para uma instituição superioir que se preze como tal.

Agora pensem comigo, qual o salário mínimo em Angola? Até onde sei são 50 dólares, imaginem agora os jovens "menos favorecidos", aqueles que passam o dia inteiro a tentar vender a sua gasosa, a tentar vender algum eletrodoméstico pelas ruas de Luanda, será que ele tem alguma hipótese de vir a frequentar uma faculdade que cobra 250 dólares/mês? Se esse jovem tiver um lucro de 50 dólares por mês nos seus negócios ele vai usá-lo para a alimentação e outras necessidades básicas e essenciais, e mesmo que tenha 50 dólares para pagar uma faculdade ele simplesmente não pode, porque em Angola não temos faculdades para esse tipo de pessoas de menor condição financeira, o que me faz concluir que eles não merecem e não têm o direito de uma formação superior como todos nós, porquê? O que foi que eles fizeram para merecer isso? Responda-me a quem for de direito. Lamentável!!!

 

OS PROFESSORES

Na área tecnológica precisamos de mestres e professores atualizados, pessoas capacitadas para nos passar experiências da vida profissional, não precisamos de pessoas que estejam a estagiar numa faculdade, não quero com isso dizer que os professores que temos em Angola sejam "estagiários", o que quero dizer é que muitos deles muita das vezes comportam-se como tal. Deveríamos parar um pouco para pensar no real significado da palavra "faculdade", a palavra faculdade provém do latim "facultate" que nada mais significa do que ter o dom, ter talento, é isso que nos falta, professores com talento para ensinar, professores com amor à profissão, parece que na maior parte das vezes eles entram para a sala de aula com o objetivo de complicar ao máximo a vida dos estudantes, como que se a conclusão daquela formação fosse um sonho um tanto quanto irreal para muitos, e talvez com a idéia de que "o vosso futuro está nas minhas mãos". Está na hora dos nossos professores passarem a olhar a realidade com outros olhos, está na hora de serem realmente professores de uma faculdade e expressarem o talento que lhes dá o direito de serem entitulados professores universitários.

Talvez seria interessante parar de ser um professor rotineiro, está na hora de inovação, os alunos ficam saturados de ouvir quase todos os dias a mesma coisa, ver todos os dias a mesma cara autoritária, talvez eles precisem de um amigo que lhes dê algumas dicas de como são as coisas mais adiante, alguém que lhes passe algumas experiências que possam servir de conforto e esperança para continuar essa jornada que para muitos não tem sido nada fácil.

O imperador português D. Pedro II disse: "Se eu não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro." Que os nossos professores possam ter o pensamento de D. Pedro II.

 

OS ALUNOS

Bom, depois de conversar com algumas pessoas que estudam e estudaram no ramo de informática notei que muitos pensam que pelo simples facto de saberem ligar o computador, acessar a internet e fazer alguns malabarismos estão aptos para serem considerados informáticos, e sentem que devem seguir essa carreira, outros ainda, porque ouvem de terceiros que é um ramo lucrativo então decidem optar pelo ramo informático, como tenho dito aos meus amigos, e volto a realçar aqui, ser informático é muito mais do que tudo isso, ser informático é optar por um modelo de vida um tanto quanto diferente dos demais, é se sentir bem na frente de um computador durante horas (a fazer coisas produtivas), é desafiar o perigo e mostrar que os computadores foram programados pelos homens e então somos nós que temos que dominá-los, é se manter atualizado constantemente, porque a informática é uma ciência de constante atualização, o que ontem era novidade amanhã será ultrapassado, mas o importante é que conheçamos a história de ontem para entendermos a evolução do amanhã, e assim vamos nos tornando ou pelo menos tentamos nos tornar informáticos.

Não adianta simplesmente atribuir a carga de culpa às instituições superiores, aos professores, é indispensável que acima de tudo tenhamos essa vontade de sermos literalmente tecnólogos, não importa as barreiras, não importa as dificuldades a nossa vontade consegue ser superior a tudo isso, mas isso é algo que depende de nós, será que é isso mesmo que queremos? A resposta é individual!!!

"O degrau de uma escada não serve simplesmente para que alguém permaneça em cima dele, destina-se a sustentar o pé de um homem pelo tempo suficiente para que ele coloque o outro um pouco mais alto."

Thomas Huxley

 

CONCLUSÃO

Depois de analisar vários pontos sobre a questão da educação e da realidade em Angola acabo por concluir que muita coisa ainda precisa ser feita, mas quem vai fazer? Serei eu, será você, seremos nós, os angolanos, o melhor de Angola ainda são os angolanos e nós temos capacidade de fazer valer aquilo que somos, não vamos permitir que o mundo continue a ter essa imagem nossa, como se estivéssemos a esconder-nos da realidade, como se o medo de enfrentar o mundo tomasse conta de nós, como se não fôssemos capazes de tocar o nosso barco adiante, precisamos sim de ajuda, e toda a ajuda será bem vinda, mas com o tempo vamos precisar caminhar sozinhos. Eu sei que a evolução angolana não é algo que vai acontecer do dia para a noite, mas sim gradativamente, mas isso só vai acontecer se cada um de nós fizer a sua parte, precisamos mudar esse quadro, a nação angolana está em nossas mãos.

Está na hora de ser criada uma comunidade tecnológica a nível das universidades para que a união entre os estudantes da área tecnológica das universidades angolanas seja mantida, pois é com base na união que vamos conseguir progredir, está na hora de debatermos com a administração das universidades e impormos o nosso ponto de vista, exigirmos a qualidade, e as universidades só têm a ganhar com isso, pois afinal de contas isso quer dizer que a democracia ainda se faz sentir, se nós os alunos conseguirmos com que a relação universidade - professor - aluno seja mantida na base do diálogo, resolveremos o maior dos problemas, a soberania, e passaremos a usufruir da humildade.

É inadmissível que alunos terminem a graduação e ainda tenham dificuldades de base, e infelizmente temos muitos casos deste gênero em Angola, existe um ditado que diz " nós somos os responsáveis pelas nossas limitações", então ninguém melhor do que nós para começar a procurar a solução para os nossos problemas. E vamos torcer para que medidas sejam tomadas no sentido de ajudar as pessoas menos favorecidas a ingressarem o ensino superior, talvez nós, jovens que felizmente temos essa possibilidade poderíamos pensar em projetos de inclusão digital, projetos sociais, no intuito de ajudar essas pessoas e de certa forma aplicarmos aquilo que nos tem sido passado pelos nossos professores, dessa forma vamos poder fazer uma auto-análise do que realmente temos aprendido, vamos passar adiante o conhecimentos que nos foi transmitido, essa sim é uma boa virtude. Bom, espero que este artigo possa ajudar algumas pessoas a analisarem a realidade de outra maneira, que possam acima de tudo lutar pelos seus ideais, poderemos mudar esse quadro, é tudo uma questão de tempo. Qualquer crítica, dúvida ou sugestão será bem vinda, vou terminar esse artigo com um pensamento, e espero que possam refletir sobre o assunto.

"O segredo do Mestre Guerreiro é saber quando lutar, assim como o segredo do artista é saber quando representar. O conhecimento de assuntos e métodos técnicos é fundamental, mas não suficiente para garantir o sucesso, em qualquer arte ou ciência de ação e desempenho, a percepção direta do potencial do momento é essencial para a execução de um golpe de Mestre." Sun Bin - Discípulo direto de Wang Li
Por: Wanderley Ribeiro 


Actualizado em ( Sexta, 22 Setembro 2006 10:18 )
 

Recados

Latest Message: 1 month, 1 week ago
  • Benone Marco : eae
  • Patrício do : olá gente
  • Benone Marco : ...é só começar a usar :D
  • Benone Marco : para quem não entendeu, isso significa que todos os registrados no TiA têm direito a um blog próprio
  • Benone Marco : espero que todos gostem e passe a usar o blog
  • Benone Marco : ...ouvindo boa música...
  • Benone Marco : é sempre bom aproveitar o fds para fazer pequenas melhorias nos projetos...
  • Benone Marco : pronto. showtbox pro povo de novo :)
  • Benone Marco : test

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